Se você é psicóloga e quer atuar com crianças, adolescentes e adultos adotados, ou mesmo no apoio a famílias adotantes, seja bem vinda! Essa é uma área carente de profissionais qualificados e preparados para lidar com as demandas específicas de cada caso.
Eu atuo com adoção desde 2012 e, já entrei na faculdade de Psicologia sabendo o que eu queria fazer, como queria mudar para melhor a vida de famílias por adoção e pessoas adotadas.
Hoje, eu atuo em diversas frentes, mas todas com o mesmo objetivo inicial. Atendo na clínica, dou palestras, ministro cursos, atuo em grupos de adoção. E também faço supervisão de psicólogas. Em breve, terei o prazer de oferecer uma formação para psis que desejam se qualificar mais profundamente para o atendimento de adotados e adotantes.
Você pode agendar sua supervisão comigo clicando aqui.
Abaixo, deixei alguns textos que vão te ajudar nos primeiros passos nessa jornada. Seja bem vinda ao mundo da adoção!
Perguntas e respostas
Fazer terapia com crianças e adolescentes que chegam por meio da adoção é seguir o processo muitas vezes num tempo diferente, mais lento. A depender do que eles sofreram e passaram, precisamos ter cuidado ao acessar esses pontos e trazê-lo para a elaboração.
Eu assemelho esse processo a um jogo de Jenga, ou torre de equilíbrio como é conhecido fora do seu nome comercial. No jogo, perde quem derrubar a torre. A diferença é que no processo terapêutico não deve existir perdedor, derrubar a torre não deve estar no script e se algum movimento coloca essa torre em risco, precisamos recuar, aguardar, até que possamos fazer este movimento de forma segura e que não desestabilize o paciente.
É um processo de movimentos delicados, em que muitas vezes cabe reforçar primeiro emocionalmente, antes de retirar alguma peça que talvez seja a sustentação de todo seu modo de ser no mundo.
Temos que perceber que mover uma peça pode derrubar a torre ou aliviar a pressão que torna a próxima etapa mais fácil e meu trabalho é pautado sempre na segunda opção.
É delicado e cheio de especificidades, porque às vezes o trauma também é a peça que passou a sustentar a torre. E às vezes é difícil diferenciar qual é a peça ideal para mover, dessa dez.
Nenhum problema pode ser resolvido dentro de bolhas. Todas as pautas nas quais avançamos – direitos trabalhistas, direitos femininos, saúde e alimentação – todos os direitos conquistados ao longo da história se tornaram conquistas porque foram debatidos de forma ampla, pela sociedade.
No caso dos direitos dessas crianças, não será diferente.
Ao chegar nas casas de acolhimento, a maioria esmagadora das crianças que perde suas famílias de origem ou que é afastada delas se torna estatística. Os números que sempre aparecem no jornal, marcando a diferença entre o volume de crianças e adolescentes disponíveis para adoção e de pretendentes. É sempre a mesma narrativa: tem mais pretendente do que criança, mas a fila continua existindo.
E a fila vai continuar existindo enquanto a sociedade inteira não se conscientizar do tamanho e da profundidade do problema, que extrapola e muito a questão de ser ou não ser adotado.
Porque o volume de crianças institucionalizadas continua aumentando? Para onde vão os que não são adotados? O que acontece com os que são devolvidos? Porque o Estado não garante os direitos estabelecidos no ECA de forma universal? Como as instituições (escola, saúde, mercado de trabalho) vão lidar com os egressos de abrigo para quebrar o ciclo de violência e abandono?
Nenhuma dessas perguntas terá resposta enquanto a adoção for uma pauta restrita ao Sistema Nacional de Adoção – SNA- e às famílias adotantes.
Precisamos “espalhar a palavraˮ, precisamos tornar o problema visível e só vamos conseguir fazer isso juntos.
Eu acredito que a terapia pode ajudar muitas pessoas, sejam elas adotadas ou não, mas eu não acredito numa psicoterapia compulsória. Um processo terapêutico forçado perde totalmente o seu sentido, pois ele por si só não pode gerar uma mudança esperada se o outro lado não estiver disposto a tal.
A adoção é um processo que envolve diversas particularidades, tanto do lado de quem adota quanto do lado de quem é adotado, por isso é muito importante existir um espaço para o autoconhecimento e para tratar possíveis feridas e traumas deixados pelo passado.
Mas para além de obrigatoriedade ou não, o mais importante é que o profissional seja capacitado para a demanda. Não necessariamente o que funciona com a maioria das crianças, funciona para as crianças adotadas, isso vale também para os casais em processo e as famílias que acabaram de receber seus filhos.
Vale lembrar também que experiência pessoal não é suficiente para entender completamente a expressão de questões exclusivas para adoção ou as necessidades terapêuticas das pessoas afetadas pela adoção.
É preciso estudo e conhecimento.